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O futebol feminino terá que se reinventar

  • Foto do escritor: Pedro Oliveira
    Pedro Oliveira
  • 2 de mai. de 2021
  • 8 min de leitura

Após as novas mudanças anunciadas pela CBF, o que realmente mudou dentro dos clubes e qual o impacto em relação ao público



Jogadoras de futebol em comemoração
Foto: Portal Uol


O futebol entre mulheres até a década de 40 ficava distante da realidade de muitos clubes. Relatar a história da modalidade feminina no esporte é mais do que poder lembrar de grandes campeonatos ou até mesmo gols, e sim sobre conquistas, reconhecimento e resistência. Momentos de angustia, proibição e muito preconceito que vem sendo desconstruído ao longo do tempo.


Após a CBF anunciar em 2019 que seria obrigatório cada clube da série A de campeonatos brasileiro a ter um time de futebol feminino, a modalidade começou a ‘ganhar mais corpo’. Seja por obrigação ou por qualquer outro motivo, o fato é que mais times de futebol feminino começaram a existir, o que ajudou na evolução da modalidade. Em 2019, as mulheres começaram a ter ainda mais visibilidade com a Copa do Mundo que ocorreu na França, competição que teve cobertura total, com repórteres no local para cobrir o evento, algo que não havíamos visto antes. Ainda que a categoria tenha começado a ter mais visibilidade com o público, o futebol feminino ainda encontra muitos problemas. A falta de apoio é uma delas, mas para que isso aconteça remete a seguinte pergunta “o futebol feminino terá que se reinventar?”.


O que mudou com as novas implementações?

A CONMEBOL em congresso, ainda no fim de 2016, com um prazo de dois anos para adaptação - portanto, passando a valer a partir de 2019 - e exige times femininos também para todas as equipes que disputarem as Copa Libertadores e Sul-Americana. O clube que não estiver dentro das regras do licenciamento, de acordo com a CBF, estará sujeito a ficar de fora das competições que exigem a licença – no caso, a séria A do brasileiro. A nova medida, no entanto, ainda não remete à profissionalização da modalidade no país com jogadoras que tenham carteiras assinadas e recebam salários fixos.


"A implementação da CBF em questão a “obrigatoriedade” do futebol feminino pode ter sido um tanto errônea, por agregar os grandes e prejudicar os pequenos como por exemplo, o Iranduba de Manaus que pode vir a ter que encerrar as suas atividades por conta de dividas. O que a CBF deveria ter exigido é a obrigatoriedade das categorias de base dentro dos clubes, como um sub-15, 18 e 20 para que as atletas dentro de quatro anos jogassem com mais naturalidade, pois estarão seguindo cada etapa até chegar no profissional", diz Guilherme Paaz da RDC TV.
"Acho que em primeiro lugar a obrigatoriedade também da CONMEBOL de que os times devem ter um futebol feminino, isso é fundamental sabe, é aquele velho ditado né “algumas mudanças elas vão pela conversa e algumas mudanças elas precisam ser a força”, então que bom que a conmebol e a CBF olharam pra isso e que a dupla Gre-nal começou a investir. E a gente tem que pegar leve também, a dupla Gre-nal tá começando a investir agora, o Inter um pouco mais avançado que o grêmio até por conta da Duda Luizeli, que hoje trabalha na CBF, mas estão acontecendo investimentos, o grêmio subiu do ano passado da segunda divisão para a primeira, tá disputando a primeira divisão pela primeira vez então a gente tem que ir com calma, assim como a gente não cobra titulo do Havaí que fica em um sobe e desce o tempo todo, assim como a gente não quer que o Ceará seja campeão Brasileiro, adiciona Raphael Gomes da Radio Gaúcha.

A maior dificuldade de crescimento da modalidade

Uma das principais dificuldades do futebol feminino é a questão da profissionalização, tanto dos administradores quanto das atletas e principalmente ter uma categoria de base dentro dos clubes que possa instruir as atletas como lidar com a imprensa entre outras situações. Como muitos desta área ainda não estão preparados para trabalhar com mulheres, a CBF deveria ter um curso para capacitar os gestores a trabalhar com o futebol feminino. Um dos grandes fatores que indicam hoje em dia a maior dificuldade do futebol feminino ainda é a questão dos investimentos. Como ainda é uma modalidade muito recente e que por muitos anos foi proibida no Brasil, as empresas ainda não abraçaram a ideia da mesma forma que abraçam o futebol masculino. Eu vejo como problema também a falta de incentivos dos próprios clubes, já que muitos têm o futebol feminino apenas pela exigência e assim poder participar de competições no masculino. Falta essa visão ainda de que o futebol feminino é uma modalidade em ascensão.

Fonte: Marina Staudt / Jornalista


A jornalista Gabriela Dantas, da Rede Globo, diz que a falta de investimento na categoria de base se torna um grande obstáculo para a categoria crescer. A falta de ´garotas´, por muitas vezes, faz com que as jogadoras pulem etapas de desenvolvimento e cheguem aos times profissionais com muita deficiência, inclusive nos princípios básicos de fundamento da modalidade. Reflete também na qualidade quando atingem o pico máximo, e atinge também o desempenho da seleção em grandes campeonatos que reúnem os melhores times do mundo inteiro que acreditam na base como o maior fator de crescimento do futebol feminino.

Hoje a modalidade mostra que a maior dificuldade do futebol feminino é a visibilidade e o investimento. O Inter é um clube que dá todo o suporte, mas a gente sabe que isso não é uma realidade para muitos clubes no Brasil. Para que a modalidade cresça é preciso que os clubes invistam e valorizem o futebol feminino. A questão da visibilidade influencia muito na busca por patrocinadores, então o apoio da mídia tradicional também é fundamental pro crescimento da modalidade.

Fonte: Mariana Capra / Assessora das Gurias Coloradas.


A maior dificuldade das mulheres ainda é financeira. A pandemia prejudicou também no aspecto de patrocinadores que precisaram retirar seus apoios por dificuldade. Ainda que haja o incentivo financeiro, ele nem se compara com o masculino. Por outro lado, há muitos “gestores” que prometem e não cumprem. Temos visto muitas equipes sem condições adequadas para treinamentos e jogos, e isso é muito triste para as meninas que têm sonhos e para a categoria que tem começado a crescer. Em relação as dificuldades relacionadas ao desenvolvimento da modalidade a partir da qualidade, acho que a dificuldade continua sendo a falta de investimento na base e as consequências que isso acarreta no profissional.

Fonte: Alinne Fanelli / Bandeirantes.

No Rio Grande do Sul, existem dois exemplos clássicos de como o investimento ajuda a modalidade a crescer: Inter e Grêmio. Os dois clubes, depois da ‘exigência’ da CBF, começaram a dar mais valor ao futebol feminino. As medidas tomadas em conjunto entre FIFA, CONMEBOL e CBF foram fundamentais para fomentar o crescimento do futebol feminino como um todo. O Grêmio se antecipou às exigências, que eram só pra 2019, mas o clube passou a tocar o projeto em 2017. A partir disso, o clube passou a incentivar e valorizar a modalidade, na minha visão, e entendeu o quão importante era investir no futebol feminino e ajudar a desenvolver essa modalidade que por muito tempo ficou carente de apoio. O Inter sempre investiu em categoria de base e está à frente do grêmio por conta da Duda Luizeli, que atualmente trabalha na CBF e está fazendo grandes investimentos e inclusive tentou contratar a Cristiane pro seu time feminino o que é um grande avanço.

Fonte: Jessica Maldonado / Assessora das Gurias Gremistas // Raphael Gomes da Rádio Gaúcha.


Marta, Cristiane ou Formiga?


Todas elas marcaram gerações! É importante frisar. No masculino, o Pelé é o maior de todos e no feminino é a mesma coisa. Marta é 5 vezes a melhor do mundo e é camisa da seleção, Formiga aos seus 40 anos jogando em alto nível na seleção e no Paris Saint-Germain é Cristiane uma grande centroavante que com dois toques na bola resolve um lance. É difícil escolher uma, é uma pergunta até cruel. São três atletas que marcaram o futebol feminino brasileiro de uma maneira muito especial, e que de certa forma internacionalizou o futebol brasileiro.

Para Guilherme Paaz “O efeito Marta, Cristiane e Formiga no futebol brasileiro tem que ser renovado”

“O efeito Marta, Cristiane e Formiga no futebol brasileiro tem que ser renovado”

Claro que a Marta é a maior pra muitos e ela significa muito, mas eu sempre gostei muito da Formiga, sabe, por ser uma mulher que persiste. A história da Formiga é encantadora, a doação dela para a Seleção Brasileira, para o futebol feminino. Ela é uma mulher que está à frente de Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, jogando uma edição atrás da outra. Acho que a Marta é a maior, mas a Formiga pra mim das três é a jogadora que mais me toca quando eu vejo jogar, sabe? Mas acho que as três são símbolos e eu espero muito que a gente possa investir cada vez mais no futebol feminino do Brasil, para formar novas atletas que vão serão ídolos do futuro e grandes nomes das próximas gerações.

Fonte: Isabelly Moraes / Bandeirantes


São jogadoras com características e funções diferentes dentro da seleção. A Marta é a mulher da construção, da referência criativa e da quebra de linhas por meio dos dribles. Cristiane é a mulher gol, de presença de área, a que precisa de apenas um toque na bola. Formiga é a referência do meio campo, da marcação, e da transição entre os setores defensivo e ofensivo. Em comum, são três jogadoras referência para qualquer outra, principalmente dentro da seleção.

Fonte: Gabriela Dantas / Rede Globo


“Eu tenho um carinho muito especial pela Cristiane, porque ela é muito engajada fora de campo, no futebol feminino esse engajamento é muito importante também”, lembra a jornalista Marina Staudt.


As mudanças nos patrocínios


Os incentivos dos patrocinadores têm mudado muito ao longo dos anos, mas é uma mudança que vem lentamente alterando como tudo funciona. A copa do mundo de futebol feminino de 2019 teve muita visibilidade, mais empresas decidiram investir e se engajar no futebol feminino, sendo algo que ajudou muito, não só a seleção como times menores também “a Pompeia patrocina a equipe do Grêmio, a Guaraná patrocina o Brasileirão Feminino. Enfim, outras empresas foram abraçando outros clubes de outros estados e isso faz toda a diferença”, afirma Mariana Staudt

“Entendo que há uma grande necessidade ainda de visibilidade - seja de espaço na mídia, transmissão de jogos, etc. Quanto mais o futebol feminino aparecer, mais as marcas vão querer apoiar”, complementa a assessora Jéssica Maldonado.

A jornalista Gabriela Dantas da Rede Globo, explica que marcas como Guaraná e Riachuelo estão investindo pesado no futebol feminino brasileiro, se tornando patrocinadores oficiais do campeonato brasileiro série um, na última temporada, o futebol inglês bateu recordes de números relacionados a incentivo e investimento em sua principal competição, a Women's Super League.


Já para Isabelly Moraes, da Bandeirantes, "a Dupla Gre-Nal tem patrocinadores como a Pompeia que é exclusiva do time e a Uber, que é a mais nova conquista do futebol feminino da dupla. Ainda há muito que conquistar, a tendência é que esse interesse das marcas cresça cada vez mais ao longo dos anos, pela forma como o futebol feminino vem se profissionalizando. Infelizmente os times menores ainda tem muita dificuldade em conseguir patrocínios, seja pela falta de visibilidade ou por empresas que precisam se desligar. “Eu acho que do ponto de vista mercadológico tem se olhado pro futebol feminino de uma forma diferente e isso é muito especial.”


O Campeonato Brasileiro contou com patrocínio da Guaraná e, nas fases finais, com o da Riachuelo. A tendência é que esse interesse cresça cada vez mais ao longo dos anos, para os times conseguirem se profissionalizar cada vez mais é preciso investimento e para isso é preciso que mais patrocinadores se interessem por futebol feminino.


“Jogadoras, clubes e competições ainda precisam de patrocinadores, o que tem sido cada vez mais comum, porém ainda é pouco”, finaliza Guilherme Maia do Jogando com Elas.

O futuro do futebol feminino nos próximos 5 anos


Ano após ano a aceitação o público tem sido cada vez melhor. Tivemos estádios lotados pelo Brasil em jogos pelo brasileiro e estaduais e a tendência é que isso siga crescendo! É notável um apoio muito grande por parte da torcida, mas 5 anos ainda é pouco para igualar ao masculino, é preciso mais do que 5 anos para a modalidade ser vista como o masculino igualmente.

“Não vejo o futebol feminino tendo a mesma adesão com o público em 5 anos quanto o masculino, mas acredito que vamos estar muito melhor”, pondera Guilherme Maia do Jogando com Elas.
“A gente está caminhando e isso não quer dizer que a gente não caminhou nada, mas não quer dizer que não tenha um longo caminho a ser percorrido”, conclui Raphael Gomes da Rádio Gaúcha.

Fontes: Guilherme Maia, Raphael Gomes, Jessica Maldonado, Mari Capra, Aline Faineli, Gabriela Dantas, Isabelly Moraes, Guilherme Paaz e Marina Staudt

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